domingo, 9 de março de 2008

Educação e Professores



Estive ontem em Lisboa, e constatei in loco a manifestação dos professores. Independentemente de se concordar ou não com as suas razões , não é possível ignorar ou minimizar o facto de 80 a 100 mil pessoas terem estado ontem em manifestação de desagrado contra o Ministério da Educação. Pelas declarações dos porta-vozes da manifestação (Fenprof, CGTP) e de alguns dos professores ouvidos, consegui perceber aquilo que eles não querem:
  • Um sistema de avaliação tal como o que foi concebido pelo gabinete do Ministério (de notar que os professores não recusam ser avaliados)
  • Serem considerados como o bode expiatório de todos os males da educação em Portugal
Agora resta saber aquilo que os professores querem ou seja quais as ideias que propõem para a melhoria do ensino em Portugal. Na minha opinião, nas questões referentes ao ensino em Portugal fala-se demasiado de professores e ministérios, e muito pouco dos que realmente interessam: os alunos. Não há como dizê-lo de outra forma: neste momento os alunos saem das escolas impreparados para as universidades e para a vida. Porque é que os alunos Finlandeses atingem graus tão elevados de excelência na educação e porque é que os alunos Portugueses não os conseguem imitar? Tendo algumas culpas no estado actual das coisas, os professores certamente não são os únicos culpados. Perderam autoridade e respeito devido a políticas ministeriais que teimam em confundir exigência e disciplina com autoritarismo, cada vez mais são incumbidos de tarefas que não fazem parte das suas habilitações (muitos pais hoje em dia "despejam" os filhos nas escolas durante 8 a 10h e esperam que sejam os professores a educá-los, quando a tarefa destes últimos é simplesmente ensinar), e têm que lidar com uma população estudantil hoje em dia mais numerosa e muito heterogénea em termos sociais e económicos.

A reforma do ensino em Portugal, pelo que me tenho apercebido pelas declarações da ministra da Educação, tem-se centrado num ponto, a meu ver importante mas não o mais prioritário: o sistema actual de carreiras está estruturado de uma forma em que um professor em início de carreira ganha muito pouco (quando comparado com um professor Finlandês, por exemplo), e um professor no topo da carreira ganha cerca de 3000 euros brutos por mês, para todos desde educadoras de infância a professores do secundário (bastante mais elevado que os congéneres finlandeses). Actualmente todos os professores conseguem chegar ao topo da carreira, independentemente das suas avaliações. Pelo que percebi, a reforma actual vai permitir que apenas ascendam a esses valores uma parte do total dos professores, que estará dependente de boas avaliações. Faz algum sentido, porque nem todos podem ser bons, já que a competência se distribui segundo uma curva normal. A introdução de avaliações e restrições à progressão nas carreiras tem a ver unicamente com a constatação pelo Ministério de que não há dinheiro para 150 mil professores poderem chegar ao topo da carreira, e não pretende ser uma forma de melhorar a educação.

No entanto começar por aqui parece-me uma acção precipitada e politicamente desastrosa. Deixo alguns dos pontos que, na minha humilde opinião, deveriam ser discutidos antes:

  1. Autonomia de gestão para a escolas, através da presença de um Director (nomeado/votado pelos professores, pelos pais e pelas autarquias) que responsabilizasse a escola pela contratação do seu corpo docente, acabando com a aberração que é a colocação de professores através de um sistema burocrático e centralizado, em que os não efectivos andam todos os anos com a casa às costas. O sistema actual é péssimo para os professores (cuja estabilidade ou falta dele se reflecte certamente no desempenho de funções), péssimo para as escolas (um professor que viva nas proximidades será certamente muito menos faltoso do que um que tenha os filhos, por exemplo, a 100 ou 200 km de distância) e péssimo para os alunos (que muitas vezes vêm um bom professor de quem gostavam e com quem aprendiam ser substituído no ano lectivo seguinte por um colega bastante menos competente).
  2. A possibilidade dos pais poderem escolher a escola em que matriculam os filhos, não estando limitados à área de residência. Isto obrigaria as escolas a terem de "competir" pelos alunos, o que as obrigaria a ser melhores.
  3. Maior responsabilização dos pais no processo de aprendizagem dos alunos. Não vale e pena chumbar repetidamente um aluno problemático e mantê-lo na escola sem envolver os pais na procura de soluções (por exemplo, tirá-lo do ensino geral e colocá-lo no ensino profissional).
  4. Criar condições de trabalho para professores e alunos dentro das escolas, para que os primeiros não tenham de ir para casa preparar aulas, fazer avaliações e desenvolver material didáctico e para que os segundos possam por exemplo fazer os trabalhos de casa com a ajuda de um professor, ou participar em actividades extracurriculares
  5. Acabar com o ensino para as estatísticas, com as progressões automáticas dos alunos e o nivelamento por baixo dos critérios de exigência do ensino.
Fica o tema para discussão, para quem quiser comentar.

2 comentários:

Teco disse...

Muitos dos problemas a que assistimos hoje em dia podem ser associados à questão da educação.
Eu fui educado no sistema francês portanto não posso dizer que compreenda o que se passa. No entanto lembro-me dos meus professores fazerem greve porque estavam a simplificar os programas e os exames!?
Actualmente tal como disseste era necessário focar as atenções na Educação. Os alunos precisavam de sair a saber. É inadmissivel certas situações de que se têm conhecimento.
Talvez um dia os nossos políticos começem a governar como deve ser tendo em atenção que está nas mãos deles desbloquear esta situação que cada vez mais hipoteca o futuro do nosso pais.

carmo disse...

Os professores não se importam de ser avaliados. Já o somos no dia-a-dia sempre que entramos numa sala de aula, sempre que avaliamos os alunos também estamos a avaliar a nossa prestação.
Para avaliarmos e sermos avaliados pelos nossos pares temos que dispor de tempo para trabalharmos, discutirmos e produzirmos os nossos instrumentos de avaliação, não da maneira que o ME quer implementar todo este processo do dia para a noite. A marcha da Indignação onde também participei vem provar que os professores deste país estão unidos em questões essenciais e que o ME tem que nos ouvir. Todos queremos melhorar a qualidade do ensino em Portugal, mas não através da via do facilitismo.